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Os Díscipulos Laicos de Sri Ramakrishna

Para os chefes de família, Sri Ramakrishna não prescrevia o árduo caminho da renúncia total. Queria que cumprissem suas obrigações para com suas famílias. Sua renúncia tinha que ser mental. A vida espiritual não podia ser obtida fugindo-se das responsabilidades. Um casal deveria viver como irmãos depois do nascimento de um ou dois filhos, dedicando todo o seu tempo a conversas espirituais e contemplação. Encorajava os chefes de família, dizendo-lhes que suas vidas eram de uma certa maneira mais fácil do que a de um monge, pois, era vantajoso combater o inimigo de dentro de uma fortaleza do que em campo aberto. Insistia, entretanto, em sua retirada para a solidão de vez em quando, para fortalecer a devoção e fé em Deus, através da prece, japa e meditação. Prescrevia-lhe a companhia de sadhus. Pedia-lhes para fazerem seus deveres mundanos utilizando uma das mãos, enquanto segurava Deus com a outra e orassem a Deus, de tal forma que ao final, pudessem segurá-Lo com ambas as mãos. Desencorajava tanto nos chefes de família como nos jovens solteiros, qualquer tibieza em suas lutas espirituais. Não lhes pedia que seguissem indiscriminadamente o ideal de não-resistência, o que em termos finais, transforma um incauto num covarde.


1. RAM E MANOMOHAN

Os dois primeiros chefes de família que chegaram a Dakshineswar foram Ramchandra Dutta e Manomohan Mitra. Praticante de medicina e química, Ram era céptico a respeito de Deus e religião e jamais havia experimentado paz de espírito. Desejava uma prova tangível da existência de Deus. O Mestre disse-lhe: “Deus realmente existe. Você não vê as estrelas durante o dia, mas isso não significa que elas não existam. Há manteiga no leite, mas pode alguém vê-la simplesmente olhando para o leite? A fim de obtê-la, uma pessoa deve bater o leite num lugar quieto e frio. Você não pode realizar Deus por um simples desejo; deve passar por algumas disciplinas mentais.” Gradualmente o Mestre despertou a espiritualidade de Ram e este tornou-se um dos seus principais discípulos leigos. Foi Ram quem apresentou Narendranath a Sri Ramakrishna. Narendra era parente de Ram.

Manomohan no início teve de enfrentar uma considerável oposição de sua esposa e outros parentes, que se ressentiam de suas visitas a Dakshineswar, mas por fim o amor desinteressado do Mestre triunfou sobre a afeição mundana. Foi Manomohan quem trouxe Rakhal para o Mestre.

2. SURENDRA

Suresh Mitra, um amado discípulo a quem o Mestre dirigia-se como Surendra, recebeu uma educação inglesa e exercia um importante cargo numa firma inglesa. Como muitos outros jovens educados do seu tempo, orgulhava-se de seu ateísmo e levava a vida de um boêmio. Era chegado à bebida. Tinha uma idéia exagerada sobre o livre arbítrio do homem. Vítima de uma depressão nervosa foi levado a Sri Ramakrishna por Ramchandra Dutta. Ao ouvir o Mestre pedindo a um discípulo que praticasse a virtude de entregar-se a Deus, ficou impressionado. Embora tivesse tentado dali para frente agir dessa manaira, foi incapaz de largar suas antigas associações e bebida. Um dia o Mestre disse em sua presença: “Bem, quando uma pessoa vai a um lugar indesejável, por que ela não leva a Mãe Divina consigo?” E para o próprio Surendra, Sri Ramakrishna disse: “Por que você não bebe vinho como vinho consagrado? Ofereça-o à Kali e depois, tome-o como prasad, como vinho consagrado, mas veja que não fique embriagado; não deve cambalear, nem os pensamentos devem vagar. No princípio sentirá uma agitação comum, mas logo experimentará exaltação espiritual.” Gradualmente sua vida inteira modificou-se. O Mestre designou-o como um daqueles comissionados pela Mãe Divina, para bancar a maior parte de suas despesas. A bolsa de Surendra estava sempre aberta para o bem-estar do Mestre.

3. KEDAR

Kedarnath Chatterji era dotado de temperamento espiritual e havia tentado vários caminhos religiosos, alguns não muito recomendáveis. Ao encontrar o Mestre em Dakshineswar, compreendeu o verdadeiro significado da religião. Dizia-se que o Mestre, cansado de dar instrução aos devotos que vinham a ele em grande número para orientação, havia uma vez orado à Deusa Kali: “Mãe, estou cansado de falar às pessoas. Por favor, dê poder a Kedar, Girish, Ram, Vijay e Mahendra para que eles dêem a elas a instrução preliminar, de forma que um pouco de ensinamento meu seja suficiente.” Ele estava, contudo, atento ao apego que Kedar há muito tempo sentia pelas coisas do mundo e muitas vezes o havia prevenido contra isso. 

4. HARISH

Harish, um jovem rico, renunciou à sua família e refugiou-se no Mestre, que o amava por sua sinceridade, vontade firme e natureza calma. Passava o tempo em oração e meditação, fazendo-se surdo aos rogos e ameaças de seus parentes. Referindo-se à sua paz de espírito imperturbável, o Mestre dizia: “Homens verdadeiros estão mortos para o mundo, embora vivos. Olhe para Harish. Ele é um exemplo.” Quando o Mestre lhe pediu para que fosse um pouco mais delicado com sua esposa, Harish disse-lhe: “O senhor deve me desculpar nesse ponto. Esse não é o lugar para mostrar gentileza. Se eu for simpático com ela, há a possibilidade de me esquecer do ideal e ser enredado pelo mundo.” 

5. BHAVANATH

Bhavanath Chatterji visitou o Mestre quando ainda era adolescente. Seus pais e parentes consideravam Sri Ramakrishna insano e fizeram o possível para impedir que ele se tornasse íntimo do Mestre. O rapaz, porém, era muito obstinado e muitas vezes passou as noites em Dakshineswar. Era fortemente ligado a Narendra e o Mestre incentivava essa amizade. A sua simples visão muitas vezes ocasionava emoção espiritual em Sri Ramakrishna.

6. BALARAM BOSE

Balaram Bose vinha de uma rica família vaishnava. Desde a juventude mostrou um temperamento religioso profundo e dedicava o tempo à meditação, oração e estudo das escrituras. Tinha ficado muito impressionado com o Mestre desde o seu primeiro encontro. Perguntou a Sri Ramakrishna se Deus realmente existia e se o homem poderia realizá-Lo. O Mestre disse: “Deus revela-Se ao devoto que O considera como o seu mais íntimo e querido. Pelo fato de que você não tenha recebido resposta à sua oração uma vez, não deve concluir que Ele não existe. Ore a Deus, pense n'Ele como sendo mais importante do que seu próprio eu. Ele é muito apegado a Seus devotos, aproxima-Se de uma pessoa antes mesmo que ela O procure. Não há ninguém mais íntimo e querido do que Deus.” Balaram jamais havia ouvido falar de Deus com palavras tão cheias de força; cada uma delas parecia-lhe verdadeira. Sob a influência do Mestre, passou por cima das convenções do ritual vaishnava e tornou-se um dos mais queridos discípulos O Mestre dormia em sua casa, sempre que passava a noite em Calcutá.

7. MAHENDRANATH OU M.

Mahendranath Gupta, mais conhecido como “M.”, chegou a Dakshineswar, em março de 1882. Pertencia ao Brahmo Samaj e era diretor do High School de Vidyasagarr em Syambazar, em Calcutá. Logo à primeira vista o Mestre reconheceu nele um dos seus discípulos “marcados”. Mahendra relatou em seu diário, as conversas de Sri Ramakrishna com os devotos, que se tornariam mais tarde "O Evangelho de Sri Ramakrishna". Essas são as primeiras palavras diretamente registradas, na história espiritual do mundo, de um homem reconhecido como pertencente à classe de um Buda e Cristo. O presente volume é uma tradução desse diário. Mahendra foi um instrumento, através de seus contatos pessoais, na disseminação da mensagem do Mestre entre muitas almas jovens e aspirantes.

8. NAG MAHASAY

Durgacharan Nag, também conhecido como Nag Mahashay, foi o chefe de família ideal entre os discípulos leigos de Sri Ramakrishna. Foi a personificação do ideal de vida do Mestre, não tocado pelo mundanismo. Apesar de ter intenso desejo de se tornar um sannyasin, Sri Ramakrishna pediu-lhe para viver no mundo com espírito de monge e o discípulo de fato levou em frente tal prescrição. Nasceu de uma família pobre e mesmo em sua meninice muitas vezes sacrificou tudo para diminuir os sofrimentos dos necessitados. Casou-se com tenra idade e, depois da morte da esposa, casou-se pela segunda vez, obedecendo ordem de seu pai. Mas um dia disse a ela: “O amor a nível físico não dura. É realmente abençoado aquele que pode dar seu amor a Deus com todo seu coração. Mesmo um pequeno apego ao corpo dura muitos nascimentos. Por conseguinte, não fique apegado a essa gaiola de ossos e carne. Refugie-se aos pés da Mãe e só pense n'Ela. Assim sua vida aqui e depois, será enobrecida.” O Mestre referia-se a ele como uma “luz ardente”. Acatava cada palavra de Sri Ramakrishna como uma verdade incontestável. Um dia ouviu o Mestre dizer que era difícil para médicos, advogados e corretores fazerem muito progresso na espiritualidade. Dos médicos dizia, “Se a mente agarra-se às pequenas gotas de remédios, como pode conceber o Infinito?” Isso foi o fim da carreira médica de Durgacharan que jogou sua caixa de remédios no Ganges. Sri Ramakrishna assegurou-lhe que não lhe faltaria comida simples e roupas. Ordenou-lhe que servisse os santos. Quando ele lhe perguntou onde encontraria santos de verdade, o Mestre respondeu-lhe que os próprios sadhus procurariam sua companhia. Nenhum sannyasin poderia ter vivido uma vida tão austera como Durgacharan.

9. GIRISH GOSH

Girish Chandra Ghosh nasceu um rebelde contra Deus, vindo a tornar-se céptico, boêmio e bêbado. Foi o maior dramaturgo bengali de seu tempo, o pai do moderno teatro bengali. Como outros jovens, absorveu todos os vícios do Ocidente. Havia entrado numa vida de dissipação e estava convencido de que a religião não passava de uma fraude. Justificava a filosofia materialista como aquela que permitia a pessoa, pelo menos, gozar um pouco a vida. Uma série de reveses abalaram-no e ele ficou ansioso por solucionar o enigma da vida. Ouvira falar que na vida espiritual, a ajuda de um guru era imperativa e que o guru deveria ser considerado como o Próprio Deus. Girish, contudo, estava bastante impregnado da natureza humana para ver perfeição num homem. Seu primeiro encontro com Sri Ramakrishna não o impressionou. Voltou para casa com tivesse visto uma aberração num circo porque o Mestre, em estado semiconsciente, havia perguntado se era noite, apesar de todos os lampiões estarem acesos no quarto. Seus caminhos, porém, cruzaram-se muitas vezes e Girish não pôde evitar encontros posteriores. O Mestre assistiu a uma apresentação de Girish no Star Theatre. Dessa vez, também, Girish não achou nada de extraordinário nele. Um dia, porém, por acaso Girish viu o Mestre dançando e cantando com os devotos. Sentiu o contágio e quis juntar-se a eles, mas controlou-se com medo do ridículo. Outro dia Sri Ramakrishna já estava prestes a dar-lhe instrução espiritual, quando Girish dis-se: “Não quero ouvir instruções. Eu mesmo escrevi minhas instruções. De nada servem. Por favor, ajude-me de uma maneira mais palpável, se puder.” Isso agradou ao Mestre que pediu a Girish para cultivar a fé.

À medida que o tempo passava, Girish começou a aprender que o guru é aquele que silenciosamente faz desabrochar a vida interior do discípulo. Tornou-se um devoto firme do Mestre. Muitas vezes enchia o Mestre de insultos, bebia em sua presença e tomava liberdades que chocavam os outros devotos, mas o Mestre sabia que no fundo do coração, Girish era terno, fiel e sincero. Não permitiu que Girish abandonasse o teatro e quando um devoto pediu-lhe para lhe falar para deixar de beber, severamente respondeu-lhe: “Isso não é da sua conta. Aquele que assumiu a responsabilidade dele, olhará por ele. Girish é um devoto do tipo heróico. Digo-lhe, a bebida não o afetará. O Mestre sabia que simples palavras não levam um homem a largar hábitos profundamente enraizados, mas que a influência silenciosa do amor operava milagres. Por conseguinte, jamais pediu-lhe para largar o álcool, o que teve como resultado, o fato de Girish por fim, abandonar esse hábito. Sri Ramakrishna fortalecera a resolução de Girish ao permitir que ele sentisse que era absolutamente livre.

Um dia Girish sentiu-se deprimido pelo fato de não se sentir capaz de se submeter a qualquer rotina de disciplina espiritual. Em estado exaltado, o Mestre disse-lhe: “Está bem, dê-me sua procuração. Daqui para frente assumo suas responsabilidades. Você não tem que fazer nada.” Girish deu um suspiro de alívio. Sentia-se feliz em pensar que Sri Ramakrishna havia assumido suas responsabilidades espirituais. O pobre Girish, porém, não havia compreendido que ele também, de sua parte, tinha que desistir de sua liberdade e tornar-se uma marionete nas mãos de Sri Ramakrishna. O Mestre começou a discipliná-lo de acordo com sua nova atitude. Um dia Girish disse a respeito de um assunto banal, “Sim, farei isso”, “Não, não”, o Mestre corrigiu-o. “Você não deve falar dessa maneira egoísta. Deve dizer, “Se Deus quiser, farei isso”. Girish compreendeu. Daí por diante esforçou-se para abandonar toda idéia de responsabilidade pessoal e entregar-se à Vontade Divina. Sua mente começou a morar constantemente em Sri Ramakrishna. Essa meditação inconsciente ao longo do tempo, purificou seu espírito turbulento.

Os devotos chefes de família geralmente visitavam Sri Ramakrishna nos domingos à tarde e nos feriados. Assim uma camaradagem fraternal gradualmente formou-se e o Mestre encorajava esse sentimento fraternal. De vez em quando aceitava um convite para ir à casa de um devoto, para o que outros devotos eram também convidados. Organizavam um kirtan e passavam horas dançando e entoando músicas devocionais. O Mestre entrava em transe ou abria o coração em narrações religiosas e contava suas próprias experiências espirituais. Muitas pessoas que não podiam ir a Dakshineswar participavam desses encontros e sentiam-se abençoados. Tal evento finalizava com uma festa suntuosa.

Era, contudo, na companhia de jovens devotos, almas puras ainda não maculadas pelo mundanismo, que Sri Ramakrishna experimentava a maior alegria. Entre os jovens que mais tarde abraçaram a vida familiar, encontravam-se Narayan. Paltu, o jovem Naren, Tejchandra e Purna. Visitavam, às vezes, o Mestre com forte oposição de suas famílias.

10. PURNA

Purna era um rapazinho de treze anos que Sri Ramakrishna descrevia como um Isvarakoti, uma alma nascida com qualidades espirituais especiais. O Mestre dizia que Purna era o último do grupo de brilhantes devotos que uma vez vira em transe e que viriam a ele para receber iluminação espiritual. Purna disse a Sri Ramakrishna, em seu segundo encontro, “O senhor é o Próprio Deus encarnado em carne e sangue.” Tais palavras vindas de um simples jovem, mostravam de que estofo ele era constituído.

11. MAHIMACHARAN E PRATAP HAZRA

Mahimacharan e Pratap eram dois devotos que se sobressaíam por suas pretensões e manias. O Mestre, entretanto, mostrou-lhes seu amor infatigável e doçura., embora ele estivesse ciente de suas limitações. Mahimacharan Chakvararty havia encontrado o Mestre muito antes da chegada dos outros discípulos. Ele havia tido a intenção de levar uma vida espiritual, mas um forte desejo de conquistar nome e fama constituía sua fraqueza. Afirmava ter sido iniciado por Tota Puri e costumava dizer que seguia o caminho do conhecimento segundo as instruções de seu guru. Possuía uma grande biblioteca de livros em inglês e sânscrito. Embora fingisse ter lido todos, a maior parte das páginas não haviam sido cortadas. O Mestre conhecia todas as suas limitações, embora apreciasse ouvi-lo citar os Vedas e outras escrituras. Sempre mandou que Mahima meditasse no significado dos textos das escrituras e praticasse disciplina espiritual.

Pratap Hazra, um senhor de meia idade, era natural de um vilarejo perto de Kamarpukur. Não era completamente indiferente aos sentimentos religiosos. Num impulso de momento havia abandonado sua casa, mãe idosa, esposa e filhos para se refugiar no templo de Dakshineswar, aonde tinha a intenção de levar uma vida espiritual. Adorava discutir e o Mestre muitas vezes citava-o como um exemplo de argumentação estéril. Era extremamente crítico em relação aos outros e vangloriava-se de seu próprio adiantamento espiritual. Era malicioso e muitas vezes procurou perturbar as mentes dos jovens discípulos do Mestre, criticando-os por sua vida feliz e alegre e mandando que eles dedicassem seu tempo à meditação. O Mestre de modo provocante, comparava Hazra a Jatila e Kutila, as duas mulheres que sempre criavam aborrecimentos a Krishna em seu relacionamento com as gopis e dizia que Hazra vivia em Dakshineswar para “engrossar o caldo”, acrescentando complicações.