VEDANTA E RELIGIÃO

Vedanta é a ciência da investigação do ser humano em profundidade.

​Introdução

Historicamente a filosofia da Vedanta foi registrada nos Vedas, as escrituras sagradas mais antigas da Índia. Estas escrituras declaram a unidade da existência, a natureza divina da alma e enfatiza a importância da harmonia entre as religiões.

De acordo com os Vedas, a realidade definitiva é onipresente, incriada, o espírito eterno e auto-iluminado, a causa final do universo, o poder por trás de todas as forças tangíveis, a consciência que anima todos os seres conscientes. Esta é a filosofia central do vedantista, e sua religião consiste de meditação sobre este espírito e oração para a orientação de seu intelecto ao longo do caminho da virtude e da justiça. Do ponto de vista filosófico, a Vedanta é não-dualista, e do ponto de vista religioso, monoteísta.


A filosofia Vedanta afirma a não-dualidade essencial de Deus, da alma e do universo. As distinções aparentes caracterizadas por nomes e formas, do ponto de vista da supra-Consciência, não têm realidade própria. Vedanta aceita todas as religiões como verdadeiras e no que diz respeito às várias divindades das diferentes religiões, considera-as como manifestações diversas de uma única Consciência Suprema, ou Deus. Isto é o essencial. Doutrinas ou dogmas, rituais ou livros, templos ou formas, são considerados detalhes secundários.

Religião é experiência

Segundo a Vedanta, religião é experiência e não a mera aceitação de certas dogmas ou credos. Para conhecer Deus é preciso tornar-se semelhante a Deus. Podemos citar as Escrituras, participar de rituais, executar o serviço social, ou orar com regularidade, mas a menos que nos demos conta do espírito divino em nossos corações, ainda seremos criaturas limitadas, vítimas da existência separativa.

Vedanta é a base filosófica do Hinduísmo, mas enquanto este inclui aspectos da cultura indiana, a Vedanta tem aplicação universal ultrapassando as fronteiras religiosas e culturais. Vedanta não é antagônica à fé de quem quer que seja. É um legado para toda a humanidade e serve aos propósitos de todas as religiões, porque apresenta ferramentas suficientes para que um seguidor sincero de qualquer religião compreenda melhor suas escrituras e as mensagens de seus profetas e santos, tornando-se um ser humano melhor e um melhor religioso.

Deus segundo a Vedanta

A palavra que exprime o mais alto e abstrato conceito dentro da Vedanta é Brahman - o vasto, eterno, infinito, puro, incondicionável além do espaço-tempo, além das relações de causa e efeito. Esta palavara aponta para o mais recôndito Eu do universo e o verdadeiro Eu de tudo o que existe, de tudo o que é móvel e imóvel, animado ou inanimado. Embora uno imanifestado esse princípio se manisfesta criando toda a multiplicidade, e aí reside toda a Sua beleza, toda a Sua majestade - pois as infinitas possibilidade existem simultaneamente: Deus é impessoal, mas se torna pessoal segundo a necessidade dqueles que O buscam.

A maioria de nós pode não ter uma definição bem acabada sobre Deus, porém com pouco esforço pode definir o que Deus não é, e tomando o caminho reverso com concentração, sua visão vai se apresentando à nossa mente. Mais uma vez é a investigação sincera e a experiência que vão sedimentar e aprofundar o conceito.

Como se pode ver, Vedanta apresenta uma concepção democrática sobre Deus, onde não há um monarca sentado em um trono, totalmente à parte do mundo. O universo assemelha-se a um sonho de Deus, e como tal, Deus habita em cada ente do universo. Embora Deus seja essencialmente impessoal, podemos ter a experiência de Deus como tangível, "como uma fruta sobre a palma da mão", o que significa que nesta mesma vida podemos suprimir nossa natureza inferior, manifestar a nossa natureza superior, e tornarmo-nos perfeitos. Através da experiência de Deus, suas dúvidas desaparecem e os 'nós do coração são feitos em pedaços'.

Ao livrar-se dos desejos que se agarram ao seu coração, um mortal se torna imortal nesta mesma existência. É a convicção de todo seguidor de Vedanta que a obtenção da imortalidade não é prerrogativa de uns poucos escolhidos, mas o direito de nascimento de todos indistintamente. Deus é espírito e Ele deve ser adorado em espírito e em verdade. O espírito vive apenas no céu? O que é o espírito? Somos todos espíritos. O que torna uma pessoa diferente da outra? O corpo e nada mais. Se desconsiderarmos os corpos, tudo é espírito. Todos vóis sois deuses.

O significado da adoraão

Swami Saradananda define adoração como 'A unidade entre o adorador e o Ser supremo’. O maior resultado deste sentimento de unidade entre o adorador e o Adorado é na verdade a compreensão da verdadeira natureza do Ser ou a realização de Brahman através do cultivo de um relacionamento muito íntimo entre adorador e Adorado.

A adoração é um dos passos mais úteis para a realização deste ideal. O objetivo derradeiro de todas estas ações como rituais, sacríficios, etc. é a realização do Ser ou Brahman. A adoração tem duas modalidades: adoração externa e adoração interna. Isto é claramente indicado no Gita desta maneira: "O Sacrifício de Conhecimento é superior ao sacrifício feito com artigos externos, porque todas ações tais como o sacrifício e a adoração culminam finalmente no Conhecimento.

Muitas pessoas podem julgar a adoração como sendo fruto de superstições e tradições sem fundamentação, porém é uma disciplina espiritual que segue um procedimento altamente racional. Se fizermos um estudo sério sobre a teoria na qual está baseado, concluiremos que há uma lógica em cada estágio, com uma sequência bem planejada de seus vários passos.

Se o adorador consegue sentir e perceber o verdadeiro espírito e significado interno do ritual, ele passa a entender sua necessidade e relevância. Segunda a Vedanta a adoração pode diferir de religião para religião e até mesmo de pessoa para a pessoa, segundo o preparo e aptidão de cada um. Porém, qualquer que seja a natureza da aduração observada, se feita com o sincero desejo de comunhão com o Espírito Supremo, ela vai mostra-se frutifera sem sombra de dúvidas.

O conceito do pecado

Vedanta não preconiza nenhum pecado e nenhum pecador. Nenhum Deus a ser temido, pois ele é o único ser de quem nunca devemos ter medo, Deus é a essência do nosso próprio eu. 

Deus é o verdadeiro Ser de todos os seres. Toda ação de natureza má, aquela ação que traz sofrimento a si mesmo e ao mundo inteiro, é oriunda da ignorância e essa ignorância torna o homem cego para a sua verdadeira natureza, faz com que o homem perca a memória de seus valores e acaba por transformá-lo num ser perverso. 

A associação com pessoas de natureza elevada, a prática da meditação, o serviço dedicado a Deus no semelhante, a fé e o auto-controle, bem como a orientação de um mestre competente, são os meios eficazes para a remoção das nuvens da ignorância, permitindo que a luz do sol interior torne verdadeiramente significativa a vida de qualquer pessoa.

De forma relativa podemos dizer que o pecado é o caminho da auto-destruição e que o pecador é um viajante naquele caminho. Porém as condições tanto do caminho quanto do caminhante estão mudando constantemente, e chega o momento em que o viajante compreende seu equívoco e passa a acertar sua rota em na direção da plenitude. Com este conhecimento torna-se clara a máxima abaixo:

"Todo santo tem um passado, e todo pecador tem um futuro".

Sobre o sofrimento

De acordo com a filosofia Vedanta, nós sofremos porque não conhecemos a verdade sobre nós mesmos. Pela nossa falsa identificação com os corpos materiais (koshas), termo sânscrito que significa “invólucro, cobertura, ou recipiente”, permanecemos presos devido à nossa identificação com nossos desejos, apegos e aversões. A principal meta da Vedanta é fazer-nos nos libertar desses invólucros e da falsa identificação. Isso é feito através das práticas espirituais, chamadas de Yoga. A meditação é o meio mais eficaz de nos libertar da ignorância e chegar ao autoconhecimento.

O que é o Hinduísmo e sua relação com Vedanta

O hinduísmo não pode ser definido como apenas um conjunto de dogmas ou uma religião com rituais específicos. Ele é muito complexo, com muitas correntes filosóficas e inúmeros rituais e métodos de se abordar a busca espiritual. Contudo, a base filosófica do hinduísmo como um todo é derivada dos Vedas. Os historiadores afirmam que a era védica se originou há mais de 5000 a.C.
A palavra hinduísmo perdeu sua conotação original, pois era apenas usada pelos persas para designar o povo que estava nas outras margens do rio Sindhu. Mas a verdadeira religião e filosofia dos hindus sempre foi a Vedanta, que é constituída pela parte final dos Vedas (os Upanishads), o Bhagavad Gita e outros tratados espirituais e metafísicos.
Os Vedas não são livros, mas verdades universais sobre a alma, vida e morte, Deus, o universo, e a relação que existe entre eles. Veda significa em sânscrito saber, conhecimento, e os Vedas são as escrituras sagradas que melhor representam o hinduísmo. Cada Veda é divido em quatro partes, sendo que os Upanishads são a parte final e mais importante de cada um dos Vedas e são compostos de tratados filosóficos.
As diferentes correntes filosóficas dentro do hinduísmo possuem muitos aspectos em comum, pois todas têm suas bases nos Vedas. Entre eles, podemos citar: Dharma, todo o universo tem uma ordem, um caminho que é direito e uma verdade universal por trás do que é manifesto; Samsara, crença na reencarnação; Karma, que cada ação produz consequências no ambiente externo e interno e influencia o samsara.
No hinduísmo não há um fundador específico, mas diversos sábios e sábias que transmitiram esse conhecimento sagrado por uma sucessão de gurus e discípulos. Esses sábios existem até hoje na Índia, e são eles que mantém a religião sempre viva.
O Hinduísmo não é politeísta nem idólatra, mas sim monoteísta, pois acredita em um único Deus Absoluto Supremo, sem forma e imanifesto, Brahman, que pode se manifestar de várias formas, que são as manifestações dos vários poderes do Deus, por exemplo Brahma, o criador; Vishnu, o mantenedor e Shiva, o transformador. O hinduísmo adora vários deuses, deusas e símbolos, mas sempre mantém que existe um único Deus Supremo, e não vários. Os diferentes tipos de adoração são usados apenas para aumentar a devoção do buscador espiritual.
No hinduísmo, as práticas espirituais têm muito mais importância do que o conhecimento meramente intelectual. A meditação é o meio mais eficaz de nos libertar da ignorância e chegar ao autoconhecimento.
Os rituais hindus realizados em templos ou nas casas são chamados de Pujas. Há toda uma ciência por trás dos Pujas, que inclui a meditação, oferendas de alimentos e outros itens, mudras, entoação de mantras, etc. Dentro do hinduísmo, apesar de ser altamente difundido a busca por Deus utilizando-se de rituais, existem outras práticas (Yogas) que dão mais foco à meditação, ações altruístas, ou busca racional filosófica. Tudo isso depende do temperamento individual de cada pessoa.
No hinduísmo, cada um tem a liberdade de buscar Deus de acordo com seu temperamento pessoal, seguindo uma das quatro principais Yogas de realização: Bhakti-Yoga, ou Yoga da devoção; Karma-Yoga, ou Yoga da ação; Raja-Yoga, ou Yoga da meditação; e Jnana-Yoga, ou Yoga da busca filosófica racional. Essa é o principal motivo de o hinduísmo ser tão diverso em sua abordagem, pois dá liberdade a cada indivíduo de escolher o caminho que mais lhe agrada (Ishta).
A alimentação dos hindus não é necessariamente vegetariana. Na era védica o vegetarianismo não era norma da sociedade. Isso veio depois pela influência de algumas religiões como o Jainismo, que tem a não-violência como seu principal preceito. Atualmente, há regiões na Índia onde se alimentam de carne, mas a carne de vaca não costuma ser consumida na Índia. Em regiões como Bengala, há um consumo maior de peixes devido a proximidade com o oceano.
Apesar de o hindu saber que o sofrimento e a dor inerentes à doença são consequências inevitáveis de ações realizadas numa vida anterior, ele não é fatalista, ou seja, sempre acredita que podemos e devemos ter esperança na cura, a esperança que a terapia seja eficaz, a esperança que Deus ouve nossas orações. O hindu acredita na lei do karma, mas não a define como algo mecânico e inflexível, pois dá importância ao fator “Graça Divina”, que pode mudar os destinos, pois é o próprio criador e condutor de todos os destinos. Além disso, a pureza das ações, os rituais e o cumprimento das obrigações religiosas aceleram a “queima” do karma negativo do passado e criam bons karmas para o futuro.
A morte é uma série de mudanças pelas quais todos passam, e não é o fim de tudo, pois é apenas a separação da alma do seu corpo físico transitório. A morte não é o fim da personalidade e da autoconsciência. A jornada continua após a morte, através de sucessivas vidas, até que a alma individual alcance o verdadeiro conhecimento espiritual. O objetivo da vida humana, de acordo com a Vedanta, é obter a realização espiritual, e isso traz ao indivíduo uma expansão de consciência que é a própria fonte de felicidade, paz, existência e conhecimento. A realização de Deus deve ser alcançada ainda durante a vida, e não após a morte. A morte quando experimentada de forma consciente e espiritual, pode tornar-se o portal para a plenitude da vida.

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